86% dos pacientes com câncer de pulmão recebem o diagnóstico nos estágios que mais matam -


O Instituto Oncoguia lançou na última quinta-feira, primeiro de agosto, o Radar do Câncer de pulmão trazendo dados alarmantes sobre a realidade da doença no Brasil. Os dados são resultado da coleta e análise de 6.915 pacientes registrados no RHC (Registro Hospitalar de Câncer) do INCA (Instituto Nacional de Câncer) no ano de 2016. “Dos pacientes com a doença naquele ano, 86,2% foram diagnosticados já em estágios avançados (III e IV), isso é muito grave e preocupante. A chance desses pacientes não estarem vivos em 5 anos é muito pequena”, destaca a presidente do Instituto Oncoguia, Luciana Holtz.

Para o mesmo ano do estudo, a estimativa pelo INCA era de 28.220 casos de câncer de pulmão e o número efetivo de casos registrados foi de 6.915. “Temos um problema sério de falta de registros, como construir políticas efetivas sem dados?”, questiona Luciana. “O Radar foi criado para que a partir da coleta e tradução dos dados, possamos fomentar o debate, o monitoramento e a priorização de questões importantes focando sempre em melhorar as políticas públicas em relação ao combate e controle do câncer de pulmão no Brasil e claro, fazer um alerta para a gravidade do problema”, conclui.

Clarissa Mathias, Oncologista Clínica do Grupo Oncoclínicas e Presidente do GBOT (Grupo Brasileiro de Oncologia Torácica) reforça o problema da subnotificação. “O registro hospitalar não é obrigatório e tudo que se fala de câncer no Brasil é deficitário para termos um retrato mais fidedigno.”


Câncer de pulmão e o tabagismo

Sabe-se hoje que a principal causa de morte evitável de câncer de pulmão no Brasil e no mundo é o tabagismo. Ainda assim, de acordo com os dados de RHC, apenas 51,6% dos casos registrados possuíam a informação se eram fumantes ou não. Destes, 79,1% eram fumantes ou ex-fumantes e 20,9% nunca tiveram contato com o tabaco.

O Brasil teve grandes avanços em políticas de cessação de tabagismo. O problema é que muitas vezes, o tabagismo não é entendido como dependência química, o que dificulta o manejo dessa pessoa na atenção primária. Tabagismo não é uma doença que se dá remédio e se cura, tem que fazer acompanhamento prolongado, existem recaídas, é considerado uma doença crônica e é a 1ª causa de morte evitável no mundo”, explica Sandra Silva Marques, Coordenadora Estadual do programa de tabagismo do Centro de Referência de Álcool, Tabaco e Outras Drogas (CRATOD).

Lei dos 60 dias

O Radar do Câncer de Pulmão no Brasil mostrou ainda que 29,83% dos 6.915 pacientes tiveram a lei dos 60 dias descumprida, isto é, tiveram que aguardar mais do que 60 dias desde a confirmação do diagnóstico para realizar o primeiro tratamento para a doença. Em algumas regiões do país, essa proporção é ainda maior, como Sergipe, Piauí, Amazonas, Maranhão e Santa Catarina.

“Infelizmente ainda não estão disponíveis no SUS tratamentos mais inovadores e atuais que podem oferecer mais tempo e qualidade de vida a esses pacientes, como a terapia-alvo e a imunoterapia. Quando há a demora para iniciar o tratamento, o quadro se complica ainda mais”, comenta Felipe Roitberg, titular do centro de Oncologia do Hospital Sírio Libanês no grupo de tumores torácicos e de cabeça e pescoço.

Diagnóstico precoce

Mudar essa realidade do diagnóstico tardio do câncer de pulmão no Brasil é uma das principais prioridades levantadas pelos especialistas que participaram do lançamento do Radar do Câncer de Pulmão. “Fazer diagnóstico precoce significa identificar pacientes corretos para rastreamento, monitorar sintomas da doença de base e valorizar as mudanças de sintomas, além de fazer o manejo de outras doenças associadas ao câncer de pulmão. Temos obrigação de garantir o diagnóstico precoce”, explica Irma de Godoy, Presidente Eleita na Sociedade Brasileira de Pneumologia.

Hoje, o rastreamento de pacientes em grupos de risco é uma das principais formas de facilitar o diagnóstico precoce da doença. “Existem estudos que comprovam o benefício do rastreamento por tomografia de baixa dose, reduzindo a mortalidade e aumentando o custo-efetividade de todo o processo, mas para isso precisamos focar também na falta de grupos de cessação de tabagismo e na má distribuição de tomógrafos no Brasil”, comenta Rodrigo Sampaio, Radiologista Torácico no Hospital de Amor (Hospital de Câncer de Barretos). Hoje existem 4,9 tomógrafos por milhão de habitantes no sistema público e 30,8 no sistema privado.

Considera-se pacientes de alto risco e suscetíveis ao rastreamento pessoas com idade entre 55 e 74 anos, tabagistas ou ex-tabagistas que pararam a menos de 15 anos com história de tabagismo de pelo menos 30 anos/maço, isto é, o número de maços de cigarro fumados por dia multiplicado pelo número de anos de tabagismo.

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