Festivais valorizam produção “prata da casa” -


Festivais valorizam produção “prata da casa”

“Raia 4”, de Emiliano Cunha

Por Maria do Rosário Caetano


O Festival de Cinema de Gramado terá sua noite inaugural nesta sexta-feira, 16 de agosto, com a exibição de dois filmes “fora do eixo”. Ou seja, com duas produções regionais representantes das regiões Nordeste e Centro Oeste – “Bacurau”, dos pernambucanos Kleber Mendonça e Juliano Dornelles, e “O Homem Cordial” , do brasiliense Iberê Carvalho.

Pioneiro na valorização do cinema regional, o badalado e longevo festival gaúcho torna-se, a partir deste ano, palco de mostra competitiva de longas-metragens “prata da casa”. Gramado exibe, há quase três décadas, filmes riograndenses de curta e longa-metragem. Mas só os curtas contavam com substantiva premiação patrocinada pela Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul.

O que, de início, parecia gauchismo (a mostra é chamada, carinhosamente de “Gauchão”), acabou servindo de modelo ao Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, que, 23 anos atrás, criou a Mostra Brasília (com curtas, médias e longas-metragens), patrocinada pela Câmara Legislativa do DF, e com prêmios dos mais significativos (troféu e boas somas em dinheiro). A Petrobras chegou a dar ao melhor longa brasiliense, Prêmio Distribuição no valor de R$100 mil.

A partir deste ano, data de sua quadragésima-sétima edição (Gramado é o segundo festival mais antigo do país), a competição de longas gaúchos ganha o mesmo status do Gauchão de Curtas. Quem acompanha o festival serrano sabe que não há festa mais alegre, vibrante e ruidosa (no bom sentido) que aquela da entrega do Troféu Assembleia Legislativa (e cheques) aos produtores, diretores, atores e técnicos riograndenses. As sessões no Palácio do Festival ficam lotadas e, durante a cerimônia de premiação, a plateia aplaude, com gosto, o contentamento dos conterrâneos laureados (claro que cada curta mobiliza dezenas de familiares e amigos, oriundos de Porto Alegre, de Caxias do Sul, de Pelotas, entre outros municípios).

Este ano, além de vinte curtas gaúchos, o público das sessões vespertinas assistirá (com entrada franca) a cinco produções selecionadas para o Gauchão de Longas: “Plauto Cruz, um Sopro Musical”, de Rodrigo Portela, “Os Pássaros de Massachusetts”, de Bruno de Oliveira, “Disforia”, de Lucas Cassales, “Super Tinga, Herói de Dois Continentes”, de Luciano Moucks e Luciana Rodrigues, e “Raia 4”, de Emiliano Cunha. Há filmes documentais e ficcionais e até um longa com herói nascido nos quadrinhos gaúchos (o Super Tingá).

A produção regional brasileira vem ganhando, há mais de uma década, relevo e espaço graças a parceria entre a Ancine e Governos Estaduais (ou Prefeituras Municipais). Prova do êxito destas parcerias (que podem murchar, caso a Ancine seja esvaziada pelo Governo Bolsonaro), há que se relembrar o que aconteceu, ano passado, na Paraíba.

Políticas públicas afirmativas no terreno do Audiovisual permitiram ao estado nordestino, famoso por seus curtas documentais, mas com produção rarefeita no longa-metragem, ser palco de algo nunca visto. O Festival Aruanda do Audiovisual 2018, sediado em João Pessoa há 14 anos, conseguiu, pela primeira vez, montar uma de suas mostras (Sob o Céu Nordestino) só com filmes locais (seis, no total).

A qualidade do que foi mostrado deixou o crítico e professor da ECA-USP, Jean-Claude Bernardet, tão bem impressionado, que ele sugeriu que se atribuísse, também, um Prêmio da Crítica ao melhor filme da mostra nordestina (este prêmio se somaria àquele atribuído ao melhor longa nacional). O que foi feito.

Lúcio Vilar, professor da UFBA e diretor do Festival Aruanda, lembra que há quatro anos nascia a mostra Sob o Céu Nordestino, destinada a filmes de realizadores do Nordeste e, também, a longas produzidos na região (aceitando, nesta categoria, obras de realizadores de outras regiões do país).

A excepcionalidade da safra de longas paraibanos de 2018 transformou a mostra numa espécie de “Sob o Céu da Paraíba”. Havia filmes em quantidade suficiente para que não houvesse necessidade de recorrer a produções de outros estados nordestinos.

Para a edição de 2019, que acontecerá no início de dezembro, Lúcio Vilar acredita que poderá contar com quatro longas paraibanos inéditos no circuito comercial. Três deles – “Jackson na Batida do Pandeiro”, de Marcus Vilar e Cacá Teixeira”, documentário-homenagem ao cantor e ritmista no ano de seu centenário, “Desvio”, de Arthur Lins, selecionado para a Mostra Tiradentes, no início do ano, e “O que os Olhos Não Vêem”, de Vânia Perazzo – já estão “praticamente garantidos”.

“Em nosso radar” – avisa o Prof. Lúcio – “está nova produção do Ramon Porto Mota, diretor de Campina Grande, intitulada ‘A Noite Amarela’ e selecionado, este ano, para o Festival de Roterdã, na Holanda”.

O diretor do Aruanda trabalha, também, com a possibilidade de complementar a mostra Sob o Céu Nordestino com mais dois longas produzidos na região (no Ceará e em Pernambuco). Estes dois estados, junto com a Bahia (e com a Paraíba de 2018), estão na linha de frente do cinema nordestino.

Lúcio Vilar, que foi titular da Fundação Cultural do Município de João Pessoa e apostou no fomento audiovisual, via editais, acredita “ser bem provável que apareçam outros rebentos da chamada Primavera Paraibana para brilhar na telona do 14º Fest Aruanda”. As inscrições estão abertas.

O Cine Ceará – Festival Ibero-americano, que realiza sua vigésima-nona edição na primeira semana de setembro, assume, este ano, com empenho especial, a função de poderosa vitrine da produção local. Serão exibidos, em diversos segmentos do festival, sediado em Fortaleza, sete filmes made in Ceará.

Para a competição ibero-americana foram selecionados “Notícias do Fim do Mundo”, de Rosemberg Cariry, e “Greta”, de Armando Praça (este passou por Berlim). Já em caráter hors concours, serão mostrados “Pacarrete“, de Allan Deberton, da seleção de Gramado, e “Soldados da Borracha”, de Wolney Oliveira, da seleção do É Tudo Verdade.

Na noite de abertura, na presença da atriz Fernanda Montenegro, será exibido “A Vida Invisível de Eurídice Gusmão”, de Karim Aïnouz, cearense e cidadão do mundo, professor de Cinema no Centro Cultural Dragão do Mar de Fortaleza. O cineasta, que vive entre a capital do estado e a germânica Berlim, ganhou, este ano, o prêmio máximo da mostra Un Certain Regard, em Cannes.

Para colocar a safra local na vitrine festivaleira, mais três novos longas-metragens serão apresentados na Mostra Olhar do Ceará, criada há vários anos, mas que sempre teve nos curtas-metragens sua peça de resistência. Este ano, além de 17 curtas (selecionados entre 102 inscritos), serão exibidos o longa documental “Currais”, de David Aguiar e Sabina Colares, e os longas ficcionais “Se Arrependimento Matasse”, de Lília Moema Santana, e “Tremor Iê”, de Elena Meirelles e Lívia de Paiva.

Um júri oficial elegerá o melhor curta e o melhor longa-metragem cearenses e seus autores subirão ao palco do Cine São Luiz, na Praça do Ferreira, para receber o Troféu Mucuripe, junto aos premiados da competição ibero-americana.

Brasília, que adiou seu festival, o mais antigo do país (foi criado em 1965), para final de novembro, seguirá com a Mostra de Curtas e Longas Brasilienses, pois ela foi criada (e votada) por desejo dos parlamentares integrantes da Câmara Legislativa do Distrito Federal. A mostra não depende, pois, dos organizadores do festival, que mudam a cada quatro anos (quando se renova a governança distrital).

Marco Túlio Alencar, um dos maiores conhecedores da história da Mostra Brasília, lembra que nasceu em 1996, graças à Resolução 117, que instituiu o Troféu Câmara Legislativa para filmes do Distrito Federal inscritos no Festival Brasília. Este ano, quando se realizará a 24ª edição do Troféu Câmara, júri designado pela coordenação da Mostra Brasília, avaliará curtas, médias e longas-metragens. As inscrições serão abertas em breve.

Lúcia Caus, diretora do Festival de Cinema de Vitória, no Espírito Santo, lembra que “o evento capixaba tem alcance nacional”, mas “nós prezamos a valorização do cinema local e fazemos questão de dar espaço à difusão das produções de nossos realizadores”. Isto porque “eles representam nossos povos, nossa história, olhares e perspectivas sobre esta terra onde nascemos e vivemos”.

“Além de termos filmes capixabas nas seleções de várias mostras competitivas” – detalha a diretora do festival – “há oito anos, realizamos a Mostra Foco Capixaba, que exibe exclusivamente filmes de realizadores locais”. Para este ano, foram selecionados seis filmes. “Entre os realizadores selecionados” – explica – “há jovens e também profissionais já consagrados”, pois “o Espírito Santo é uma fábrica de talentos para o audiovisual, e o Festival de Vitória, um ponto de encontro, uma janela de exibição de suas experimentações e aprendizados”.

O fomento ao audiovisual capixaba vive, segundo Lúcia Caus, “momento de muitas mudanças em relação às políticas de incentivo, tanto em nível nacional, quanto estadual”. Demorou – lamenta – “mais do que esperávamos, mas foram lançados os editais neste ano de 2019, no mês de julho passado, e eles apresentam várias oportunidades para quem quer fazer cinema”. E complementa: dispomos, agora, de 14 editais de seleção de projetos de audiovisual oferecidos pela Secult”, que “distribuirão R$11,9 milhões a diversas categorias de realização”.

Marilha Naccari, da Comissão Diretora do FAM (Florianópolis Audiovisual Mercosul), que em setembro realiza sua 23ª edição, avisa que os filmes catarinenses participarão da Mostra Infanto-Juvenil, da competição de Videoclipe e da Mostra Curta Catarinense, espaço dedicado exclusivamente à produção local. “Nós, que fazemos o FAM, entendemos que a Mostra Curta Catarinense funciona como tela de reconhecimento e valorização da nossa cultura”. Por isto – detalha – “dentro das competições do festival, os filmes são exibidos na grade da Mostra Curta Mercosul e concorrem a todas as categorias, tendo também prêmio exclusivo”. Estes prêmios exclusivos “fazem parte da proposta de fomento da cadeia produtiva local, uma vez que toda a nossa premiação é oferecida por empresas parceiras em serviços para a continuidade da produção”. E mais: “fazemos questão de convidar filmes fora de competição para aumentar a representatividade da produção do estado nesta vitrine que é o FAM”.

Entre os “convidados especiais” deste ano, estão cinco longas catarinenses (todos serão exibidos no espaço nobre do evento, ou seja, no Complexo de Salas Cineshow). “Abrindo as Janelas do Tempo”, de Santiago José Asef, é um musical realizado em Bombinhas, a capital catarinense do mergulho ecológico”, explica Marilha Naccari. E prossegue: “A Maravilha do Século”, de Márcia Paraíso, constrói-se como um documentário sobre tema religioso (a trajetória do profeta ou monge João Maria), “Crisálida, o Filme”, de Serginho Melo, que é falado em português e na linguagem em libras, e “Tekoayhu”, de Chico Faganelo, que se passa na Tríplice Fronteira”. Já “O Espiral de Contos de Deolindo Flores”, de Rodrigo Araujo e Thiago Soares, realiza um mix de terror e cinema fantástico.

“Nosso estado” – esclarece Marilha – “conta com lei (de número 15.746, de 11 de janeiro de 2012), que prevê edição anual do Prêmio Catarinense de Cinema, em parceria com lei federal (nº 8.666, de 21 de junho de 1993)”. Mas, constata, “nem sempre o edital é lançado e algumas vezes não mostrou constância na data de abertura ou pagamento dos valores devidos”.

“Felizmente” – conta, satisfeita – “no último dia 30 de julho, foi lançado o edital deste ano, com arranjos de suplementação federal via Fundo Setorial do Audiovisual, e a produção local contará, portanto, com históricos R$19 milhões”. O resultado final com os projetos premiados está previsto para novembro.

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