Eliminar pastoral familiar é muito grave para Instituto João Paulo II, adverte professor -


Vaticano, 14 Ago. 19 / 10:08 am (ACI).- Padre Juan Pérez-Soba, professor do Pontifício Instituto Teológico João Paulo II, advertiu que a eliminação da pastoral familiar do currículo é “muito grave” e contrária ao que o Papa Francisco diz no motu proprio Summa familiae cura; nesse sentido, apontou que “uma rápida retificação” é necessária.

Desta forma, o especialista espanhol em pastoral familiar se juntou às críticas que o vice-presidente do Instituto, Pe. José Granados, e mais de 240 alunos e ex-alunos fizeram aos novos estatutos do centro.

Em uma entrevista concedida ao Grupo ACI, Pe. Pérez Soba advertiu que o novo currículo “nos foi imposto de fora. Para mim, que sou catedrático de pastoral, não digo que não tenham levado em conta minha opinião, mas que nem sequer me consultaram. Eu soube pela imprensa sobre os novos estatutos”.


“Achei estranho que na nova licenciatura em Ciências do matrimônio e da família, a pastoral não apareça em todo o itinerário acadêmico. Eliminar a pastoral familiar é uma carência muito grave, contrária ao que diz o Papa no motu proprio Summa familiae cura. O Instituto foi refundado para ser mais fiel a Amoris laetitia, e reduzem a pastoral familiar, que é fundamental na Amoris Laetitia!”, expressou o sacerdote espanhol.

“Espero que seja um erro por causa da precipitação com que as coisas foram feitas. Uma rápida retificação é necessária, se não querem que esta nova licenciatura tenha esta extrema pobreza”, acrescentou.

As declarações de Pe. Pérez Soba chegam dias depois que mais de240 alunos e ex-alunos do Pontifício Instituto expressaram suas preocupações sobre os novos estatutos em uma carta enviada ao presidente da instituição, Mons. Pierangelo Sequeri, e ao Grão-Chanceler, Dom Vincenzo Paglia.

Com os novos estatutos, as contratações de novos professores e o desenvolvimento do currículo estarão sob o controle do Chanceler Dom Paglia; e dois de seus principais professores, Mons. Livio Melina e Pe. José Noriega, não continuarão ensinando no Instituto.

Ambos não serão demitidos, mas não terão seus contratos renovados, embora possam continuar trabalhando com os alunos concluindo dissertações sob sua direção.

Mons. Melina foi o primeiro a obter um doutorado no Pontifício Instituto João Paulo II, em 1985, e chegou a presidi-lo por vários anos. Pe. Noriega é conhecido por sua linha favorável às encíclicas Humanae vitae, de São Paulo VI, e Veritatis splendor, de São João Paulo II.

Sobre a carta de alunos e ex-alunos, Pe. Pérez Soba disse que os alunos sempre perceberam que o Instituto “também oferecia uma visão pastoral” e que nos últimos anos pediram que ele organizasse um grupo de ação, um projeto que “pode ser visto no livro preparado por Mons. Livio Melina: ‘Conversão pastoral, sim! Mas, qual?’”.

Nesse texto, ressaltou o sacerdote, “a expressão ‘conversão pastoral’ do Papa Francisco na Evangelii gaudium foi aprofundada. Este livro ajudou durante o Sínodo de 2015, que partia de um Instrumentum laboris muito pobre do ponto de vista pastoral. Faltava, sobretudo, falar sobre a preparação ao matrimônio. Estava escrito, sem dúvida, por alguém que nunca havia trabalhado neste âmbito”.

Sobre a maneira como a casa de estudos acolheu o ensinamento da Amoris laetitia, do Papa Francisco sobre o amor na família, Pe. Pérez Soba assinalou que “o instituto desenvolveu as intuições do Papa a partir das chaves de acompanhamento, integração e discernimento. Diante de muitos que viram uma ruptura, lemos o magistério na necessária continuidade eclesial. Sem essa continuidade, é impossível fazer qualquer reforma”.

“Observe: somos a única instituição acadêmica que fez e ensinou um comentário às Catequeses do Papa Francisco sobre a família. Não será que muitas pessoas estão interessadas apenas em mudanças sociológicas, mas estão pouco interessadas em dar vida às famílias?”, perguntou.

“No Instituto, precisamente, houve uma grande riqueza de reflexões sobre a família. Tudo isto é a manifestação simples e atônita da fecundidade de um ensinamento que foi fermento de autêntica conversão pastoral dentro da Igreja. E milhares de casais e centenas de pastores testemunham isso”, destacou o sacerdote.

Sobre a contribuição da instituição nos últimos 40 anos, Pe. Pérez Soba sublinhou que “o Instituto João Paulo II se adiantou à conversão pastoral que o Papa Francisco pediu às famílias. Recordemos a frase de São João Paulo II: A família é o caminho da Igreja!”.

“João Paulo II indicou entre os objetivos do Instituto a formação de agentes pastorais. Se comparado com outras universidades e faculdades de teologia, surpreende o grande número de iniciativas de pastorais que o instituto empreendeu”, como “o mestrado universitário em matrimônio e família dirigido precisamente para as famílias. Centenas de casais foram para se formar, em vários países da Europa”. 

Diante daqueles que afirmam que o Instituto João Paulo II realizou uma proposta “idealizada demais”, o sacerdote lembrou que o Papa polonês disse: “‘Eu sei o que é a família’. Essa expressão foi entendida por alguns como a busca de uma família idealizada. Mas não foi assim. João Paulo II queria transmitir ilusão às famílias. Dizia-lhes: o caminho depende de vocês, ninguém poderá fazer isso por vocês. Vocês poderão responder ao chamado de Deus”.

Deste modo, “João Paulo II se opunha a uma pastoral focada apenas na solução de problemas, porque esta é uma pastoral míope. É o olhar de quem vê em primeiro plano a fragilidade das famílias e não olha mais e, portanto, tenta desculpar os comportamentos. João Paulo II, por outro lado, nos disse: devemos estar perto da fragilidade das famílias, mas antes da fragilidade há algo mais importante. Antes da fragilidade é o dom que Deus dá às famílias e a força de Deus para sustentar a família em sua vocação!”.

“Desta forma, abria-se uma pastoral ousada, que não ia atrás dos problemas da família. Superava a visão do ‘Manual de Pastoral’ de Arnold e Karl Rahner, que desconfiava da família. Observe que este manual, de suas 3.500 páginas, dedicou apenas 70 a tratar da família!”.

Pe. Pérez Soba explicou que, na Familiaris Consortio, São João Paulo II pediu a cada país que criasse um diretório de pastoral familiar, algo que “caiu no saco furado das boas intenções”, porque “aqueles que faziam pastoral familiar se desesperavam ao ver os problemas crescerem, como a falta de preparação dos noivos antes do matrimônio ou o número de divórcios. Então, o Instituto, discretamente, foi pioneiro em uma nova maneira de apresentar a pastoral”.

“Eu pude experimentar tudo isso junto com os professores José Noriega e Juan Andrés Talens, desde 1997, na Espanha. Começamos a ensinar aos casais diretamente para que começassem a trabalhar nas dioceses e paróquias”, indicou.

O sacerdote explicou que, sob a direção de Dom Juan Antonio Reig Pla, o Diretório de Pastoral Familiar surgiu na Espanha, o que encorajou os bispos espanhóis em seu serviço às famílias.

Do Pontifício Instituto João Paulo II, surgiram as mais diversas iniciativas, continuou o sacerdote, como o ensino da teologia do corpo realizada pelo santo polonês, iniciativa realizada na Jornada Mundial da Juventude de Madri 2011; ou, por exemplo, “os estudos sociais nas favelas de Salvador da Bahia, realizadas por Dom João Carlos, e o cuidado da família com os pais que estão presos”.

“O Instituto estendeu seu trabalho aos mais diversos países: China, Coreia, Índia em suas diversas culturas, mundo árabe, Zâmbia, Angola e todo o amplo espectro da América Latina. Uma enorme riqueza que promete melhores frutos. É a verificação de uma fertilidade pastoral impressionante, cujo alcance real é muito difícil de medir”, destacou o especialista.

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