Companheirismo a serviço do Senhor, entrevista com Ir. Nogueira -


No início de 2019, Irmão José Patrocínio Nogueira celebrará 70 anos de Companhia de Jesus. O jesuíta, que completará 86 anos em 18 de novembro, pertence a uma geração de Irmãos Coadjutores, tão preciosos ao desenvolvimento dos Apostolados da Ordem religiosa. E foi, inspirado pela missão de outros Irmãos, que ele, aos 17 anos, já tinha certeza da vocação a ser seguida: ‘vou ser religioso, vou ser Irmão’. Sua alegria e seu companheirismo sempre deixaram boas lembranças por onde trabalhou e passou. Outra característica de sua personalidade, a facilidade de relacionamento, permitiu ao Ir. Nogueira transitar entre jovens estudantes com a mesma facilidade com que se reunia com professores e formadores. Leia a entrevista que ele concedeu ao informativo Em Companhia e conheça um pouco mais da história desse jesuíta.

Conte-nos um pouco sobre sua história de vida.


Nasci em uma família católica praticante, no dia 18 de novembro de 1932, em Guarapari, no Espírito Santo. Éramos em 10 irmãos, quatro homens e seis mulheres. Sou o mais novo de todos e, em breve, farei 86 anos.

Como o senhor conheceu a Companhia de Jesus?

Nós morávamos a uns 33 quilômetros de Guarapari. Lá, havia uma capela, onde um padre, que atendia o interior, celebrava missa uma a duas vezes por mês. Esse padre era jesuíta. Eu era coroinha dessa igreja e, assim, acabei conhecendo-o melhor, fazia companhia para ele, pegava o cavalo dele no pasto…

Como foi a sua decisão pela vida religiosa?

Eu tinha 11 anos quando esse padre da capela me perguntou: ‘Você quer ser jesuíta? Quer ser padre?’. Respondi que queria, mas iria conversar com meus pais primeiro. Ele adiantou que meus pais, certamente, ficariam contentes. Aliás, meu padrinho de Batismo era um bispo.

Ainda com 11 anos, eu fui para uma espécie de seminário. Mas, por ser muito novo, acabei voltando para a casa dos meus pais, onde fiquei por quatro anos. Aos 15 anos, eu regressei a esse local e, dois anos depois, entrei na Companhia de Jesus, em 1949. Estava com 17 anos de idade.

Por que o senhor decidiu ser jesuíta? E como se deu a escolha pela vocação de Irmão?

Foi interessante porque, naquela época, eu conhecia mais os salesianos, pois havia muitos no estado do Espírito Santo. Inclusive, o meu padrinho bispo pertencia aos salesianos. Depois da minha escolha, ele até brincou comigo: ‘o senhor me enganou, hein’. Respondi: ‘não, não enganei’ (risos). E ele completou: ‘para servir a Deus, está bom, é tudo padre’. Mas, na verdade, eu tinha mais proximidade com o jesuíta que celebrava missa na capela perto de onde fui criado.

Em relação à escolha pela vocação de Irmão, quando fui para o seminário, era para ser Padre. Mas, bem antes disso, eu já havia tomado minha decisão. Nos quatro anos em que fiquei em casa, decidi: ‘vou ser religioso, vou ser Irmão’. Dois Irmãos que conheci, que me ajudaram muito e os quais eu admirava pela forma de agir, foram importantes para inspirar a minha decisão vocacional.

Além disso, o que me motivou para a vocação de Irmão foi perceber minha habilidade para coisas externas e de administração. Era visível que minha vocação era mais essa do que o sacerdócio. E nunca me arrependi dessa escolha!

“A essência da vocação de Irmão é o companheirismo dentro da vida religiosa”

Nesses quase 70 anos como Irmão jesuíta, quais as experiências mais marcantes que o senhor viveu?

O período mais marcante, para mim, foi o que passei na Casa de Formação, em Belo Horizonte (MG), onde vivi por 17 anos. Além da alegria dos jovens, que são a maioria no Teologado, tem também a convivência com muitos estrangeiros. Lá, havia estudantes da Costa Rica, do Uruguai, do Paraguai, da Bolívia…

Mas, como Irmão jesuíta, eu trabalhei em várias funções, desde a área administrativa até fazendo pão e dirigindo trator e caminhão. Quando a Faculdade Anchieta foi transferida para a Rodovia Anhanguera, outro Irmão e eu fizemos 17 viagens de Nova Friburgo (RJ) até lá, cada um de nós dirigindo um caminhão. Trouxemos cadeiras, mesas, tudo já montado. Naquele tempo, os móveis não desmontavam.

Como surgiu a vocação de Irmão na Companhia de Jesus? E como ela se difere da vocação de Padre?

A vocação de Irmão surgiu com Santo Inácio de Loyola, que viu a necessidade de ter religiosos para desempenhar certas funções, as quais os Padres, em razão dos estudos, não conseguiam ajudar. Nessa época, éramos chamados de Irmãos Coadjutores, palavra que significa ‘aquele que ajuda o outro’. A essência da vocação de Irmão é o companheirismo dentro da vida religiosa.

Antigamente, os Irmãos não faziam Teologia e Filosofia. Mas, atualmente, podem escolher se querem fazer ou não. Já, na vocação de Padre, é necessário cursar Teologia e Filosofia. Além dessa diferença, nós, Irmãos, não celebramos missa, por exemplo.

Como o senhor lembrou, a vocação de Irmão passou por transformações. Qual a importância dessas mudanças?

Temos que ver que o mundo mudou, as famílias mudaram, não é? Então, nós, religiosos, não podíamos ficar sem mudanças. Foi uma grande transformação. Antigamente, o Irmão dedicava-se mais a trabalhos manuais, porém alguns, já naquele tempo, trabalhavam em funções como contabilista e secretário, entre outras. Hoje, por exemplo, temos Irmãos que desempenham missões junto aos jovens e refugiados. A própria vida nos mostra o que é necessário ser feito e não podemos ficar marcando passo.

Essa entrevista foi publicada na 49ª Edição do informativo Em Companhia (Outubro 2018). Quer ler a edição completa? Então, clique aqui!

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