Indignação seletiva -


Há mais de um ano essa coluna nasceu após uma polêmica quando dois atletas do futebol paulista, Jadson (Corinthians) e Felipe Melo (Palmeiras) declararam voto para Jair Bolsonaro, sendo depois ferozmente patrulhados pelos radicais de sempre da imprensa esportiva, os mesmos que nunca viram qualquer problema, por exemplo, no lulismo de David Luiz, zagueiro do Chelsea que evoca tristes memórias na seleção brasileira, ou de ex-atletas do vôlei e da natação. Indignação seletiva?

Quando defendi o direito dos atletas de se expressarem politicamente, fui igualmente atacada por estes mesmos jornalistas e membros da esquerda paz e amor, e minha resposta, em defesa da liberdade de expressão, despertou o interesse dos editores deste jornal, uma honra para mim que toda semana faço o meu melhor para retribuir. Para não dizer que os críticos estão totalmente errados, tendo a concordar que manifestações político-partidárias devem ser evitadas quando os atletas estão representando o Brasil em quadra, como aconteceu na vitória contra a França pelo Mundial masculino de vôlei, mas manifestações individuais de esportistas nas suas próprias redes sociais ou em seus clubes, exercendo seus direitos constitucionais de cidadãos, não podem de forma alguma serem constrangidas ou cerceadas.

O que me chamou a atenção, no entanto, não foi o teor político em algumas comemorações nos eventos esportivos pelo Brasil neste fim de semana, mas o fato de que os mesmos críticos dos atletas que expressaram suas posições políticas (será que criticariam se a escolha fosse a mesma que a deles?) aplaudiram Colin Kaepernick, 30 anos, ex-quaterback que desde 2016 não tem vaga em times da liga nacional de futebol americano por seu desempenho sofrível nos campos. Em 2016, Kaepernick chamou atenção da imprensa por sistematicamente desrespeitar a execução do hino nacional antes dos jogos, além de outras presepadas e fanfarronices típicas de quem quer mitigar o baixo desempenho esportivo, e quem sabe evitar um possível término de contrato e a perda de milhões de dólares, com ativismo político.


Seu radicalismo não garantiu lugar em clube algum, mas nestes tristes tempos de politização de tudo vemos que sua estratégia marqueteira está funcionando ao menos para conseguir contratos publicitários milionários como o recente com a gigante Nike, que joga, antes de qualquer coisa, mais combustível na já perigosa fogueira da extrema polarização política que vive a América. Mais uma vez, é o capitalismo premiando anticapitalistas, uma aula básica de política para quem ainda não entende que defender o livre mercado, como fazem os conservadores, não significa defender cegamente tudo que grandes corporações fazem apenas por serem empresas privadas, como fazem os ultra-liberais, e ignorar as consequências na sociedade. Alertas precisam ser dados, o resto é por conta do mercado. Ou será um touchdown ou um fumble histórico.

Colin Kaepernick parece detestar o país que deu a ele fama e fortuna. Seu ativismo inclui não apenas o desrespeito aos símbolos nacionais nos jogos e aos veteranos de guerra que são representados pela bandeira e hino americanos, o que causou sérios prejuízos à NFL, mas também usar meias com policiais como “porcos”, os mesmos que arriscam a vida por negros e brancos diariamente. Já tratei do assunto num artigo anterior, mas a recente campanha da Nike me obrigou a retornar ao tema. No ano passado, Colin Kaepernick processou a liga acusando seus dirigentes de conluio para que nenhum clube desse vaga a ele, como se ser um ativista de esquerda não fosse valorizado pelos donos da NFL e a atual imprensa americana que adora apostar no quem lacra, lucra.

Ruim nos campos, pior ainda fora deles. O ex-atleta e atual garoto-propaganda também já doou muito dinheiro para a Assata’s Daughters, grupo radical de esquerda que homenageia Assata Shakur, ex-Pantera Negra que foi condenada e presa pelo assassinato de um policial em 1973. Seis anos depois, Assata Shakur fugiu da cadeia e em 1984 fugiu para Cuba onde pediu asilo político e mora até hoje. As doações de Colin Kaepernick incluem dinheiro para o programa CopWatch, que treina voluntários para filmar ações policiais. Ele também já doou para grupos que combatem “mudanças climáticas” e combustíveis fósseis, e que apóiam as políticas de importação em massa de imigrantes do Partido Democrata, assim como causas abortistas.

A NFL pagou um alto preço pelo desrespeito aos símbolos nacionais americanos nos últimos meses e voltou atrás, mas a Nike resolveu reacender a polêmica num caminho que lembra o infame fotógrafo Oliviero Toscani e as campanhas publicitárias que causaram danos praticamente incuráveis para a marca Benneton. O tempo e o mercado, com seus consumidores ávidos e mais ativos que nunca, dirão se a forma de lucrar lacrando de uma das maiores empresas esportivas do mundo foi longe demais. Os boicotes à marca já começaram e depois de perder bilhões no mercado e ser questionada por investidores, vídeos com consumidores queimando produtos da marca começam a viralizar aqui nos EUA. O preço que a empresa poderá pagar pela saliência pode ser alto.

Nestes tempos de bússola moral torta, com corporações apoiando causas que, no limite, destruirão parte ou o sistema que criou estas empresas, temos que lembrar que não há qualquer mérito em “acreditar em algo” cegamente, apenas como pagamento de pedágio ideológico. Podemos, sim, fugir da gritaria e histeria ideológica pra defender o que é verdadeiro, certo e justo. Just do it.

Texto de Ana Paula Henkel para o Estadão.

Leia mais: https://politica.estadao.com.br/blogs/ana-paula-henkel/indignacao-seletiva/


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