Establishment continua querendo acreditar num Haddad “moderado e pragmático” -


Escrevi ontem sobre a tentativa em curso de se pintar Fernando Haddad como alguém moderado e pragmático, um petista com estilo tucano, o candidato do establishment contra Jair Bolsonaro. Hoje mesmo já tivemos dois novos textos nesse sentido, e muitos outros virão, podem apostar. O primeiro deles é o editorial da Folha, questionando quem Haddad será, como se a resposta fosse mesmo uma grande incógnita. Diz o jornal:

É inegável, porém, que insistir numa ficção significa ludibriar o eleitorado. Agora, a realidade se impôs.
O concorrente oficial, Haddad, dispõe de credenciais administrativas e políticas consideráveis —foi ministro da Educação e prefeito de São Paulo. Nada disso, porém, tem maior relevância na campanha.


Seu ponto forte é Lula ou, mais precisamente, a extraordinária popularidade do líder petista, em especial entre os eleitores mais pobres e menos instruídos. No Datafolha, 33% dizem que votariam com certeza em um postulante apoiado pelo ex-presidente.

[…]

Paradoxalmente, Lula também torna Haddad vulnerável. O ex-prefeito de São Paulo surge no pleito na condição de preposto, estafeta —um poste, como se diz no jargão eleitoral— de seu padrinho.

Se tal imagem já não convém a um presidenciável, há o agravante da experiência vivida com o desfecho desastroso do governo de Dilma Rousseff, outra criação lulista.

Outro complicador é que a insistência do partido em carregar a candidatura fictícia de seu cacique até o último instante possível encurtou o espaço de Haddad na propaganda de rádio e TV.

Ele precisará agora dedicar a maior parte do tempo a vincular seu nome ao do ex-presidente. Isso significa que a campanha não terá como foco a exposição de propostas para tirar o país da crise em que a administração petista o lançou.

Dado que o candidato tem chances reais de vitória, a tentativa de associá-lo à memória dos anos Lula, somada a uma discussão programática rasa, eleva os riscos de novo estelionato eleitoral.

Credenciais administrativas e políticas consideráveis? Foi um péssimo ministro da Educação, tendo ficado mais conhecido pelo nefasto “Kit Gay” e pelo suspeito vazamento da prova do Enem. E foi um prefeito ainda pior, sendo lembrado pela patética ciclovia e tendo perdido a reeleição no primeiro turno para João Doria. É forçar demais a barra para realçar o “outro” lado do candidato petista, não é mesmo?

O segundo texto “vaselina” é de Matias Spektor, alegando que Haddad confronta um dilema externo, e que pode se afastar da linha oficial de seu partido na questão da geopolítica. Diz o autor:

Ciente da relação umbilical entre expectativas de mercado e postura geopolítica, Haddad ainda começou a repetir que, diferentemente do que dizem Gleisi Hoffmann e a burocracia de seu partido, Venezuela e Nicarágua estão longe ser democracias.

Para essa estratégia vingar, Haddad teria de rasgar a plataforma de política externa do PT. Ele tiraria do barco os economistas da Unicamp que o assessoram e nomearia uma figura pró-mercado para liderar a equipe. Essa pessoa montaria uma agenda pública de reuniões com investidores estrangeiros, funcionários do governo americano e técnicos graúdos do FMI (Fundo Monetário Internacional).

Além disso, Haddad enviaria um emissário a Buenos Aires para tirar foto com o chefe de gabinete de Mauricio Macri. Ao sair da Casa Rosada, o assessor diria à imprensa que seu candidato fará tudo para evitar uma crise de confiança capaz de desatar a crise de economias emergentes, para a qual o Fundo começou a alertar há menos de uma semana. 

Foi isso que Lula fez com disciplina entre maio e outubro de 2002. Mobilizou dois operadores graúdos —Antonio Palocci e José Dirceu— e, com isso, obteve o apoio da embaixada americana.

[…]

A alternativa de Haddad é usar o modelo Dilma em 2014: manter a rota atual com obstinação, deixando intactas as teses esdrúxulas do partido sobre situação fiscal do país. Nesse mundo, ele continuaria dizendo que reverterá as reformas de Temer e que irá mesmo convocar um plebiscito popular sobre capital estrangeiro no pré-sal.

Qual escolha Haddad fará é impossível de prever. Aquela feita por Lula no passado é a mais custosa, mas também a única que permitiria a ele, ganhando a eleição, assumir o governo tendo algum chão. 

Seja qual for a alternativa escolhida, ela definirá o risco político global do Brasil durante este ciclo eleitoral. 

Ou seja, os formadores de opinião tratam Haddad como uma incógnita ainda, uma dúvida, alguém que pode tanto ser um gestor pragmático e moderado como um… petista. Sendo que ele é petista, sempre foi, e obedece ao líder máximo do “partido”. Volto à minha conclusão já apresentada antes:

Desnecessário lembrar como acabou a enganação do Lula 1.0, não é mesmo? Palocci está preso e delatando Lula como receptor direto de propina, enquanto a economia foi para o buraco numa crise sem igual depois que a farsa acabou. Lisboa teria que ser muito idiota para aceitar um papel desses, uma vez que qualquer pessoa minimamente inteligente sabe qual a essência do PT e como seria o tom de vingança no caso assustador de sua volta ao poder.

O verniz de moderação colado na testa de Haddad pelos escribas petistas é um truque barato, fadado ao fracasso. Se bem que estamos falando do Brasil, e é bom lembrar que muitos do mercado financeiro chegaram a acreditar na Dilma gestora, uma empulhação de fazer uma pessoa atenta gargalhar até passar mal. Espera-se ao menos que, dessa vez, o pessoal não caia na mesma armadilha patética. Haddad é sinônimo de PT e Lula, que são sinônimos de Venezuela e Maduro. Qualquer outra coisa é mentira para seduzir otários.

Rodrigo Constantino

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