Fake News: Interesses duvidosos que podem ameaçar o futuro da democracia -


Toda a polêmica envolvendo o Facebook mostra que estamos diante de um
grande desafio: garantir a transparência das informações para que não
sejam utilizadas de maneira maliciosa, intolerante e prejudicial à
sociedade. Essa preocupação se tornou ainda mais evidente quando Mark
Zuckerberg, criador da rede social, disse em entrevista à CNN, na semana
passada, que fará o que for necessário para garantir a integridade das
“eleições no Facebook”, inclusive no Brasil.

Não seria presunção demais achar que a disputa eleitoral se restringe
aos posts e troca de farpas que existem nos períodos próximos às
eleições, com algumas amizades desfeitas em caso de opiniões contrárias?
Por mais que pareça um absurdo, Mark Zuckerberg sabe o que está dizendo
e a sua parcela de responsabilidade no fenômeno que chamamos de fake
news, as informações falsas que circulam pela Internet.

A discussão sobre a interferência das notícias nas eleições ganhou um
novo capítulo no final de semana dos dias 17 e 18 de março, quando o
jornal americano The New York Times e os ingleses The Guardian e
Observer revelaram que os dados pessoais e detalhes sobre atividades
on-line de 50 milhões de perfis do Facebook foram coletados e utilizados
para fins eleitorais, sem que os usuários tivessem dado autorização para
tal.


Segundo as publicações, as informações foram obtidas, entre junho e
agosto de 2014, por meio de um aplicativo desenvolvido por Aleksandr
Kogan, um psicólogo da Universidade de Cambridge, na Inglaterra, e
inspirado nas pesquisas de outro estudioso da mesma instituição, Michal
Kosinski. As denúncias sugerem que o Facebook teria consentido que o
aplicativo fizesse a coleta de dados em sua plataforma para fins
acadêmicos, porém Kogan teria vendido os dados à Cambridge Analytica,
uma empresa que tinha em seus quadros Steve Bannon, o ex-estrategista da
campanha presidencial de Donald Trump.

Tudo indica que as informações coletadas no Facebook foram cruzadas com
registros de eleitores e utilizadas para produzir campanhas on-line que
reproduzissem exatamente o que aquelas pessoas pensavam e queriam do
próximo presidente. Acredita-se que os dados pessoais vendidos por Kogan
à Cambridge Analytica serviram para divulgar abertamente informações
tendenciosas e notícias a milhões de cadastrados no Facebook,
alimentando uma série de preconceitos. Há indícios, que a mesma
estratégia foi utilizada na época do referendo sobre o Brexit, que deu
vitória à saída do Reino Unido da União Europeia. Nos dois casos –
eleição de Donald Trump e Brexit – a Rússia pode ter interferido para se
beneficiar do resultado que lhe mais interessaria, naquele momento.

Na semana passada, o Channel 4 News aguçou a discussão ao divulgar
vídeos em que revela como a Cambridge Analytica faz campanhas secretas
nas eleições em todo o mundo. Chefes foram filmados falando sobre uso de
subornos, ex-espiões e identidades falsas. Em um dos vídeos, o canal
mostra uma fala do diretor da Cambridge Analytica, Mark Turnbull, que
menciona: “Precisamos ser sutis. Botamos informação na corrente
sanguínea da Internet e vemos crescer. Fizemos o México, a Malásia,
agora vamos para o Brasil”.

Diante dessa quebra de confiança da Cambridge Analytica com o Facebook e
deste com seus usuários, como fica a questão da democracia? No mundo em
que as empresas de marketing político conhecem detalhes sobre os gostos,
medos, opiniões e vulnerabilidades das pessoas, o fato de curtir o post
de um amigo ou compartilhar uma informação pode oferecer munição a
estrategistas para criar conteúdos que possam exacerbar a intolerância,
além de contribuir para que alguns candidatos se beneficiem do que é
publicado nas redes sociais.
É preciso investir na educação, implementar regulamentações e
conscientizar a sociedade sobre a importância de verificar se as
informações compartilhadas nas mídias sociais são verdadeiras. No
Brasil, a morte trágica de Marielle Franco não intimidou a criação de
fake news que tentavam depreciar a história de luta da vereadora
carioca. E o pior: as informações foram compartilhadas como verdadeiras
por pessoas do Judiciário e do próprio meio político.

A discussão sobre fake news e, mais recentemente do escândalo da
Cambridge Analytica e Facebook, nos leva a refletir sobre a necessidade
de desenvolver soluções focadas em cibersegurança, que consigam
minimizar este tipo de informação e denunciar seus autores, para que as
redes – criadas originalmente para unir – não sejam um pretexto
desonesto para ameaçar a democracia e o futuro político de diversos
países.

(*) Marco Stefanini é fundador e CEO global da Stefanini


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